A campanha com o melhor ROAS da sua conta costuma ser a que menos gera venda nova
Quem digita o nome da sua empresa no Google já decidiu comprar. Cobrar essa venda como resultado de mídia produz o número mais bonito do relatório e a decisão de verba mais errada do trimestre. O teste que separa as duas coisas leva duas semanas.
Toda conta tem uma campanha que parece perfeita. Retorno de 12, de 18, às vezes mais. Ela aparece no topo do relatório todo mês e ninguém discute o orçamento dela, porque o número está ali.
É quase sempre a campanha de marca. E a pergunta que quase nunca é feita: se você desligasse ela amanhã, perderia 12 reais para cada real que deixou de investir?
Na maioria das vezes, não. Perderia bem menos. Em algumas contas, quase nada.
A diferença entre atribuído e incremental
São duas perguntas diferentes e o painel só responde uma.
Atribuído é quanto de receita passou por aquele anúncio antes de virar venda. É o que toda plataforma mede, e ela mede bem.
Incremental é quanto daquela receita não existiria se o anúncio não tivesse rodado. É o que importa para decidir orçamento, e nenhuma plataforma mede, porque ela precisaria provar que o resultado dela não aconteceria sem ela.
Quando a pessoa digita o nome da sua empresa no Google, ela já decidiu. Se o seu anúncio aparece, ela clica nele. Se não aparece, ela clica no resultado orgânico logo abaixo, que provavelmente também é seu. A venda acontece nos dois casos. Só muda quem leva o crédito, e se você pagou por ele.
Por que todo mundo gosta da campanha de marca
Vale ser honesto sobre os incentivos, inclusive os nossos.
Campanha de marca faz o relatório de agência ficar bonito. Ela puxa o retorno médio da conta para cima, dilui o resultado ruim das campanhas de aquisição e dá um número confortável para mostrar na reunião mensal. Nenhuma agência precisa ser mal-intencionada para gostar disso: basta ninguém questionar.
Do lado do anunciante acontece a mesma coisa. Quem aprovou a verba quer ver retorno. A campanha de marca entrega retorno. A conversa acaba ali.
O resultado é uma conta que parece saudável e cresce pouco. Todo mês o retorno está ótimo e todo mês a receita total anda de lado, porque a maior parte do orçamento eficiente está comprando gente que já ia comprar.
Onde a canibalização aparece além da marca
Não é só busca de marca. Três outros casos comuns:
Remarketing muito curto. Público de sete dias, gente que já visitou a página do produto. Retorno alto garantido e incrementalidade duvidosa, porque boa parte dessas pessoas voltaria sozinha.
Campanha de carrinho abandonado sem janela. Se você impacta a pessoa quinze minutos depois do abandono, está pagando por quem ia voltar de qualquer jeito. A partir de 24 ou 48 horas a conversa muda.
Cupom em quem já estava no checkout. O desconto não trouxe a venda, ele reduziu a margem de uma venda que ia acontecer. É canibalização com custo duplo.
Retail media dentro do marketplace. O anúncio aparece para quem já pesquisou seu produto naquele marketplace. Parte do resultado é apenas mover a venda de orgânico para pago dentro da mesma plataforma.
O teste de desligamento, em quatro passos
Existem ferramentas de teste de incrementalidade dentro do Google e da Meta, e elas são melhores que qualquer método caseiro. Também são pouco usadas, porque exigem volume e um pouco de coragem.
Para quem não tem volume para isso, o desligamento controlado resolve. Ele é grosseiro e funciona.
Passo 1. Escolha o recorte. Uma campanha, ou um grupo de produtos, ou uma região. Não desligue a conta inteira: você quer um comparativo, não um susto.
Passo 2. Anote o total antes. Receita total do negócio no período equivalente, não receita atribuída. Inclua orgânico, direto, e-mail e loja física se houver. É o total que precisa ser comparado, porque é ele que paga a conta.
Passo 3. Desligue por duas semanas. Menos que isso é ruído. Evite datas atípicas: feriado, promoção, lançamento. Se tiver sazonalidade forte, compare com o mesmo período do ano anterior em vez da semana passada.
Passo 4. Compare o total, e olhe o orgânico. Três resultados possíveis:
- A receita total caiu na mesma proporção. A campanha era incremental. Volte e invista mais.
- A receita total ficou igual e o orgânico subiu. Canibalização confirmada. Você estava pagando pelo clique que viria de graça.
- A receita caiu, mas bem menos que o atribuído. O caso mais comum. Existe alguma incrementalidade, menor que o painel diz. Agora você tem o número real para dimensionar a verba.
Quando a campanha de marca vale cada centavo
Existem casos claros em que desligar é erro, e eles são específicos o suficiente para você saber se é o seu.
Concorrente comprando o seu nome. Se alguém anuncia em cima da sua marca, sair do leilão entrega o clique para ele. Aqui a campanha não é aquisição, é defesa, e o cálculo de retorno nem é o critério certo.
Revendedor ou marketplace ranqueando na sua frente. Se quem aparece primeiro na busca pelo seu nome é um terceiro vendendo seu produto com margem menor para você, o anúncio recupera a venda direta.
Marca com nome genérico. Se a sua empresa se chama algo como Casa das Tintas, a busca pelo nome não é busca de marca, é busca de categoria. Aí é aquisição de verdade.
Lançamento ou campanha institucional em curso. Quando você está gerando busca por outros meios, garantir o topo para quem procurar é parte do investimento que você já fez.
Em todos esses casos, a campanha continua. O que muda é que ela deixa de ser contada como performance e passa a ser contada como o que é: proteção de canal.
O que olhar quando não dá para desligar nada
Nem toda empresa tem estômago para pausar campanha. Dá para começar mais leve:
Separe marca de não marca nos relatórios. No Search Console existe filtro de consultas de marca, e no Google Ads dá para separar por campanha. Ter duas linhas em vez de uma média já muda a conversa.
Compare receita total com investimento total. Receita do negócio dividida por tudo que foi gasto em mídia. É grosseiro e é a métrica mais difícil de enganar, porque não depende de atribuição nenhuma.
Olhe a curva, não o mês. Se o retorno médio está ótimo há seis meses e a receita total está estável, a mídia está capturando, não criando. Nenhum relatório de campanha mostra isso. O gráfico de faturamento mostra.
O que não fazer
Não desligue a marca sem avisar quem decide. O número vai piorar na tela antes de melhorar o entendimento. Se o teste pegar alguém de surpresa numa reunião, ele acaba na segunda semana e você não aprende nada.
Não teste em período atípico. Black Friday, feriado prolongado, lançamento, greve de transporte. Qualquer coisa que mexa na demanda contamina o resultado e você conclui o oposto do certo.
Não trate incrementalidade como argumento para cortar mídia. O teste serve para realocar, não para reduzir. Descobrir que a marca é pouco incremental é um convite a mover verba para aquisição, não a devolver verba para o caixa.
Não conclua com uma semana. Compra tem tempo de decisão. Em ticket alto, parte do efeito do desligamento aparece só no mês seguinte, e quem lê na semana 1 conclui que não houve impacto nenhum.
A campanha de marca não é vilã. Ela costuma valer a pena por motivos que não têm nada a ver com o retorno que ela exibe. O problema começa quando o número dela vira a régua da conta inteira, e a verba migra ano após ano para o lugar onde é mais fácil parecer eficiente.
Perguntas frequentes
O que é incrementalidade em marketing?
É a parcela da receita que não teria acontecido sem o anúncio. É diferente de receita atribuída, que é toda a receita que passou pelo anúncio antes da compra. Uma campanha pode ter alta atribuição e baixa incrementalidade quando atende pessoas que comprariam de qualquer forma.
Devo desligar minha campanha de marca no Google Ads?
Só depois de testar, e nem sempre. Ela se justifica quando concorrentes anunciam sobre o seu nome, quando revendedores ou marketplaces aparecem antes de você, ou quando o nome da empresa é genérico o bastante para a busca ser de categoria. Nesses casos ela é defesa de canal, não aquisição.
Como testar se uma campanha gera venda nova?
Pause a campanha por duas semanas fora de período atípico e compare a receita total do negócio, não a receita atribuída no painel. Se o total não cair, houve canibalização. Google e Meta também oferecem testes de incrementalidade nativos, que são mais precisos e exigem mais volume.
Por que o ROAS não serve para decidir orçamento?
Porque ele mede eficiência, e não causalidade. Ele mostra quanta receita passou pelo anúncio, mas não mostra quanta receita dependeu dele. Direcionar verba apenas por ROAS leva o dinheiro para onde é mais fácil capturar crédito, e não para onde a mídia realmente faz diferença.
Remarketing também canibaliza vendas?
Pode canibalizar, principalmente em janelas muito curtas. Impactar alguém que visitou a página há poucas horas costuma alcançar quem voltaria sozinho. Janelas mais longas e exclusão de quem já está em processo de compra reduzem esse efeito.
Quer isso aplicado na sua conta?
A gente faz um diagnóstico da operação antes de propor qualquer coisa, e diz também quando não vale contratar.